sábado, 2 de junho de 2012

O MELHOR LIVRO DE FOFOCAS DO ANO






O ano de 2012 está praticamente na metade, mas acho que dificilmente algum livro que sair vai superar o último lançamento de Perry Anderson (estou me restringindo ao ramo das fofocas acadêmicas, obviamente).
Como eu tive que comprar outros livros, ainda não arranjei dinheiro para comprar essa obra. Mas já li a maior parte dela em 5 ou 6 vezes que estive na livraria aqui perto de casa. E alguns amigos meus já devem estar cansados de me ouvir falar dela....
Você deve estar se perguntando o que diabos esse livro publicado por uma editora comunistinha (BOITEMPO) tem de especial. Então vamos do começo….
Perry Anderson é historiador de formação. Um dos colaboradores mais antigos do periódico de esquerda britânico New Left Review. Para quem não se lembra a New Left Review é uma espécie de TALMUD do marxismo ocidental que teve entre seus fundadores Edward Thompson, Stuart Hall e o próprio Anderson lá na década de 1960.



P. ANDERSON na foto


Não vou falar mais da biografia de Anderson porque quero ir direto a porra do LIvro do ANo, ESPECTRO. Vou ser bem didático e explicar em 3 pontos porque ele é o livro do ano:
1. Ele analisa grandes intelectuais do século XX que fizeram sucesso no DIREITO, na FILOSOFIA, na ECONOMIA, na LITERATURA e na HISTÓRIA.
2. Ele analisa grandes intelectuais de várias partes do mundo, MENOS DA FRANÇA.
3. O LIVRO É DIVIDO ENTRE INTELECTUAIS DE DIREITA, CENTRO E ESQUERDA.
O livro fala de muita gente famosa. Mas vou me restringir apenas aos MAIS FAMOSOS aqui, para ser mais rápido. Seguirei a ordem do livro, que começa na direita, passa pelo centro, e chega na esquerda:
DIREITA
CARL SCHIMIT, o grande teórico do Estado de Exceção (ditadura, a grosso modo)
FRIEDERICH VON HAYEK, teórico do neoliberalismo, prêmio nobel de economia e economista favorito da Margareth Tatcher
LEO STRAUSS, professor de filosofia política que formou boa parte dos neo conservadores dos EUA.
Ao invés de simplesmente xingar a direita ANDERSON faz um belo exercício antropológico de compreensão de seus valores. Trata-se daquela direita OLD SCHOOL, que vive pelos seus valores e pela sua moral. Homens que achavam que as elites politicas tinham a responsabilidade de conduzir moralmente as massas incultas através da democracia. Mas não muita democracia, porque o excesso de liberdade corrói a tradição e também o ESTADO.
A contemplação de Anderson te faz perguntar até que ponto ele é um escritor de esquerda. Mas no final dessa parte Anderson deixa o desafio da esquerda bem claro. Os intelectuais universitários podem continuar lendo seus autores da centro-esquerda liberal. Mas nas altas chancelarias FRIEDERICH HAYEK continua a ser a principal referência.




HAYEK, o favorito de Margareth Tatcher

CENTRO
Jurgen Habermas: Ultimo grande arauto da Escola de Frankfurt, elaborou toda uma teoria da democracia como um grande consenso feito com muito diálogo.
John Rawls: Filósofo Liberal. Favorito do direito nos EUA. Seu livro “Teoria da Justiça” é uma espécie de Bíblia do direito Norte-Americano.
Norberto Bobbio: O italiano que mais teorizou sobre a democracia no século XX
Aqui Perry Anderson descarrega toda a sua fúria. Nessa parte só falta ele dizer que é por causa da democracia liberal que esse mundo ta a merda que tá. Então ele mostra como esses grandes teóricos da democracia liberal tem sua culpa no cartório. Habermas, herdeiro de Theodor Adorno, traiu a Escola de Frankfurt e virou um paga pau dos EUA. Ele acredita que se dialogarmos mais tudo vai se resolver. John Rawls elaborou uma teoria da justiça tão altista que parece mais uma teoria da injustiça. Norberto Bobbio foi o que mais oscilou entre a esquerda e o centro, mas no final, acabou no centro.
Todos os 3 elaboraram grandes teorias sobre o funcionamento de uma democracia. Mas na prática, não passaram de teorias…




Habermas, o judas da Escola de Frankfurt se confessando para o Papa Bento 16???



ESQUERDA.
Eric Hobsbawn: Historiador marxista, companheiro de Anderson na New LEFT. Anderson diz que Hobsbawn escreve muito bem, mas tira ele para esquerda moderada. (Isso me lembrou um professor meu que dizia que dos historiadores da Nova Esquerda, Hobsbawn era o mais vendido para as grandes editoras)
Gabriel Gárcia Marquez: Escritor colombiano, acho que Anderson só colocou ele no livro pra dizer que falou de um latino-americano

Edwart Thompson: Outro historiador companheiro de Anderson da NEW LEFT…..
……ok para finalizar, eu preciso dizer. O texto sobre Thompson é, no mínimo, o mais emocionante do livro. O texto é curto, mas trata-se da homenagem que Anderson escreveu na ocasião da morte de Thompson no início dos anos 1990. Anderson ressalta que analisar a vida intellectual de Thompson é uma tarefa difícil. Quando tinha que se comportar como um professor universitário de história, ele se comportava como um típico militante marxista. Quando tinha que se comportar como um militante marxista……. comportava-se como um anarquista, revolto, polêmico, que ninguém podia controlar. 


Thompson não pensou duas vezes antes de largar as atividades acadêmicas para se lançar em uma cruzada pelo fim da Guerra fria nos anos 80. Cruzada em que investiu boa parte do que ganhou com o sucesso de seus livros, sendo que morreu doente e sem muito dinheiro em 1993. Um exemplo raro de um acadêmico de sucesso, que vivia mais para a política do que para a academia….

Da direita para a esquerda, passando pelo centro, é assim que caminha o livro de Perry Anderson. A verdadeira direita presa pelos seus valores, não faz questão de se esconder. Difícil é separar o centro da esquerda. A separação que Anderson fez talvez não seja a melhor. Mas as análises que faz certamente compensam a leitura do livro. 



sábado, 19 de maio de 2012

Aniversário do BLOG




Não sei se alguém além de mim já percebeu, mas o blog completou um ano essa última semana!


Só para citar alguns números, em um ano de existência estamos perto de 8000 visualizações. Alguém me diz aí se isso é muito ou pouco porque honestamente eu não sei?

Quanto a repercussão, obviamente a maioria do público é brasileiro. Mas vale destacar que o blog já foi acessado nos cantos extremos do planeta tipo Argentina, Noruega, e até na mãe Rússia.


Pra ser sincero, hoje eu não vou postar nada de novo por dois motivos:

1 – eu tenho umas 3 idéias boas que irão cobrir a demanda do blog do final de maio até o dia dos namorados! Então, aguardem o que vem por aí.

2 – Como o blog fez um ano, eu resolvi postar o link do post inicial, que deu origem a tudo isso mais ou menos um ano atrás! Os leitores que não forem muito vagabundos acessarão o link, provavelmente:



No mais, agradeço aos amigos que desde o ano passado continuam botando pilha para eu escrever as coisas que eu ponho aqui!

E para encerrar esse post em um tom de mistério, segue em silêncio algumas imagens do que virá nas próximas semanas! Aguardem....







segunda-feira, 30 de abril de 2012

Metodologia da fofoca






Hoje vou aproveitar para fazer aqui algumas considerações metodológicas sobre a fofoca! Se os leitores me permitirem vou transcrever aqui trechos de um texto do sociólogo alemão/judeu Norbert Elias! O nome do texto diz tudo: “Observações sobre a fofoca”. É um capitulo do livro “Estabelecidos e Outsiders”, o trabalho mais antropológico do respectivos sociólogo. Basicamente Elias fez uma etnografia de uma cidade do interior da Inglaterra, e observou, entre outras coisas, o papel da fofoca na integração da comunidade! Não vou me prender a biografia de Elias HOJE! Basta dizer que o trabalho foi feito em algum momento depois da 2 guerra mundial, quando Elias já morava na Inglaterra!

No mais vale lembrar que outro sociólogo alemão/judeu, Georg Simmel tem um texto sobre a sociologia do segredo! Quem sabe um dia eu não me inspiro nesses dois textos para escrever a dialética da fofoca e do segredo? Alguma revista aceitaria isso???Quem sabe? Segue a baixo algumas citações do mestre no respectivo texto!

Tudo que ta aí pertence a Norbert Elias, ZAHAR, 1994!!





“A fofoca, em outras palavras, não é um fenômeno independente. O que é digno dele depende das normas e crenças coletivas e das relações comunitárias. (...) O uso comum nos inclina a tomar por “fofocas”, em especial, as informações mais ou menos depreciativas sobre terceiros, transmitidas por duas ou mais pessoas umas às outras. Estruturalmente, porém, a fofoca depreciativa (blame gossip) é inseparável da elogiosa (pride gossip), que costuma restringir-se ao próprio indivíduo ou aos grupos que ele se identifica.“(p.121)

“Na verdade, não é mais do que meia verdade enfatizar, como se tem feito algumas vezes, a função integradora dos mexericos. A realidade é mais complexa, como mostrou essa pesquisa, ainda que, basicamente, a estrutura da fofoca e a configuração de suas funções numa comunidade sejam bastante simples. Que não se pode tratar o boato como um agente independente, que sua estrutura depende da que prevalece na comunidade cujos membros fofocam entre si, são informações já feitas.” (p.124)

“Portanto, a idéia de que a fofoca tem uma função integradora requer algumas ressalvas. Ela imputa à fofoca as características de uma coisa ou uma pessoa capaz de atuar sozinha como agente causal, quase independentemente dos grupos que a circulam. Na verdade, é apenas uma figura de linguagem dizer que a fofoca tem tal ou qual função, pois ela nada mais é do que o nome genérico de algo feito por pessoas reunidas em grupos. E o termo “função”, nesse e noutros casos similares, tem a aparência suspeita de um disfarce para o velho termo “causa”. Atribuir à fofoca uma função integradora pode facilmente sugerir que ela é a causa cujo efeito é a integração. Provavelmente, seria mais exato dizer que o grupo mais bem integrado tende a fofocar mais livremente do que o menos integrado, e que, no primeiro caso, as fofocas das pessoas variam conforme a estrutura e a situação.” (p.129)

“A fofoca, no entanto, sempre tem dois pólos: aqueles que a circulam e aqueles sobre quem ela é circulada. Nos casos que o sujeito e o objeto da fofoca pertencem a grupos diferentes, o quadro de referência não é apenas o grupo de mexiqueiros, mas a situação e a estrutura dos dois grupos e a relação que eles mantêm entre si.“ (p.130)

“Mais uma vez constatamos a que ponto a estrutura da fofoca está ligada à do grupo que circula. O que foi anteriormente apontado como “fofoca elogiosa”, que tende para a idealização, e como “mexerico depreciativo”, que tende para a degradação estereotipada, são fenômenos estreitamente ligados à crença no carisma do próprio grupo e na desonra do grupo alheio.” (p.133)

sábado, 7 de abril de 2012

Lacan Comunista???



Já reclamaram que eu ando dando muita atenção aos franceses nesse blog vide o último post: http://teoriadafofoca.blogspot.com.br/2012/03/paris-nunca-foi-tao-pequena.html . Prometo que até final desse mês postarei algo falando do mundo anglo-saxão-germânico. Hoje, serei obrigado a prestar uma rápida homenagem ao psicanalista/filósofo/porraloca Jacques Lacan. Afinal de contas ele faturou o primeiro lugar na nossa enquete do intelectual mais sexy do ocidente. Se você não viu a enquete, veja aqui: http://teoriadafofoca.blogspot.com.br/2012/02/o-intelectual-mais-sensual-do-mundo.html  .




A pergunta no topo do site diz tudo! Lacan era comunista? Os leitores que leram o último post sabem que seria difícil dar esse tipo de rótulo pra ele. Mas não sou poucos os órfãos marxistas, que após a prostituição da Mãe Rússia, viram na psicanálise a chance de fazer uma terapia coletiva do capitalismo. Poderíamos até dizer que alguns desses comunistas estão fazendo a sua própria terapia, pois parece que eles estão traumatizados até hoje com o abandono da Mãe Rússia.  Slavoj Zizek é provavelmente o mais famoso dessas figuras, mas podemos citar outros como o francês Alain Badiou e o discípulo n. 1 de Raymond Williams, Terry Eagleton. No Brasil, o maior representante dessa corja de órfãos é o filósofo da USP Vladimir Safatle. O título do doutorado dele diz tudo:




Longe de mim querer saber mais de Lacan do que esses monstros da teoria! Mas, alguns intelectuais que já traçaram a biografia do psicanalista destacaram o quanto ele era metido a granfino, sem falar do seu ego, que literalmente era um SUPER EGO! Além de cobrar muito caro de seus pacientes, Lacan não escondia sua paixão por caviar! Apesar de andar com ilustres figuras do partido comunista francês, Lacan nunca aderiu ao partido. Alguns tentam dizer que ele era um anarquista. Outros, que ele era tão cheio de si que estava cagando para a política mesmo, e só queria saber da sua psicanálise e de seus pacientes!




Um dos maiores exemplos de sua prepotência teórica foi Félix Guatarri. Este era um dos melhores alunos do círculo de chegados do mestre. Porém trocou Lacan por Giles Deleuze e juntos publicaram o grande golpe na psicanálise, “Anti-Édipo”. Na biografia que François Dosse escreveu do casal Guatarri e Deleuze http://teoriadafofoca.blogspot.com.br/2011/05/devo-o-insight-sobre-desse-post-um.html , ele ressalta que quando Anti-Édipo foi lançado, Lacan se sentiu tão ofendido que fez questão de dar de dedo na cara do Deleuze, e romper relações com ele e Guatarri.




Por essas e outras razões listadas aqui, me pergunto se o falecido Lacan gostaria do uso que os comunistas andam fazendo de sua obra para tentar entender o capitalismo. Se me permitem a opinião, acho que se Lacan estivesse vivo, estaria em Hollywood. Sim Hollywood! Trabalhando como psicanalista das celebridades. Super imagino ele atendendo Paris Hilton e Lindsay Lohan, teorizando que a vida depravada dessas meninas é uma tentativa frustrada de seduzir a figura do pai! Nossa imaginem se ele tivesse chegado a atender Michael Jackson? Que belo artigo acadêmico não teria resultado?

Para finalizar, segue abaixo o tipo de contribuição que a psicanálise pode oferecer na  derrocada do capitalismo!



domingo, 25 de março de 2012

Paris nunca foi tão pequena




Como de costume vou começar o post pedindo desculpas pela ausência de posts. Acontece que passei as últimas semanas organizando minha vida na esperança de encerrar o ano de 2012 vivo (mesmo que o mundo acabe). Fora esse melodrama inicial, peço aos leitores que votem na maldita enquete que está quase encerrada e com poucos votos: http://teoriadafofoca.blogspot.com.br/2012/02/o-intelectual-mais-sensual-do-mundo.html .

Hoje pretendo falar aqui de gente famosa: Jacques Lacan, Pierre Bourdieu, Michel Foucault, Slavoj Zizek, entre outros. Pretendo conectá-los através de uma figura pouco lembrada no Brasil, e que nas raras vezes que é lembrada, é em manifestações de repúdio: Louis Althusser.




Devo ressaltar que isso daqui não é um artigo científico. Mas as especulações que aqui se encontram foram proporcionadas por fofoqueiros renomados da academia: Elizabeth Roudinesco, biógrafa de Lacan; Terry Eagleton, o maior fofoqueiro do marxismo; e François Dosse, o maior fofoqueiro da academia francesa. Qualquer um que souber algo a mais, sinta-se livre para me corrigir!

Vamos nos voltar para a França da década de 1950/1960, momento em que Levi-Strauss e seus 4 cavaleiros do estruturalismo: Foucault, Barthes, Lacan, Althusser; começaram a esmagar o existencialismo fenomenológico de Jean Paul Sartre. Desses arautos do Estruturalismo, Althusser é o menos lembrado no Brasil por 2 motivos que, na minha opinião, geraram repulsa a sua figura:

1 -  Althusser até que era lido por grupos da esquerda brasileira nos tempos da ditadura. Mas com a reabertura, o inimigo decladrado de Althusser, Edward Thompson, se tornou muito popular no Brasil, criando uma verdadeira legião de thompsonianos que seguiram seu líder.

2  –  Althusser estrangulou a sua própria esposa e passou os últimos dias da vida num hospício. Sim, ele era um assassino e não tiro sua culpa!! Mas como comentarei mais a frente, existem indícios de que sua mulher era quase tão louca quanto ele. 

Ok, voltando para França! Ainda na faixa dos 20 anos o jovem Althusser foi para a guerra enfrentar os nazistas.  Ele foi capturado pelos alemães e passou alguns anos em um campo de prisioneiros. Algumas fontes dizem que esse período da prisão que deixou Althusser meio louco. Outras dizem que ele já sofria de depressão antes de ir pra guerra, e que isso só piorou o estado dele. Independente da loucura, ou não, foi no campo de prisioneiros que Althusser aderiu ao comunismo. Com a guerra acabada, em 1947 Althusser se formou em filosofia na renomada Ecole Normale Superieure de Paris (doravante ENS). Devido ao seu desempenho excepcional, logo virou professor na mesma instituição.  Em 1948 aderiu ao Partido Comunista Francês (doravante PCF).

Alguns dizem que Althusser só caiu de cabeça no comunismo por causa de Helene Rytmann, sua futura esposa. Quando se conheceram em 1946, Althusser tinha 28 anos, e Helene 36. Judia nascida na Rússia, Helene foi afastada do PCF pois seus colegas achavam ela meio louca (sim, eles realmente achavam isso). Eles achavam isso não só por ela parecer meio trotskista,  mas por acreditarem que ela fazia parte de um esquadrão secreto que matava franceses que ajudaram os nazistas.




Voltando a falar de Althusser, a depressão pegaria pesado nos anos de professor da ENS. Na virada de 1940/1950 ele seria internado algumas vezes, chegando a passar por algumas sessões de eletrochoque (alguns dizem que foram essas sessões que piraram ele de vez). Talvez por ser um comunista com depressão, Althusser se empolgou em tentar combinar filosoficamente Freud com Marx. Nessa época, ele começou a fazer sucesso na ENS, tanto como professor de filosofia, tanto como um dos principais representantes do PCF.




Vale destacar que nessa época passaram pelas suas aulas de filosofia os 2 franceses mais lidos das ciências humanas: Michel Foucault e Pierre Bourdieu, ambos graduandos em filosofia. Fato pouco mencionado é que Althusser pois o nome de Foucault na lista de membros do PCF, assim como de outros alunos. Até onde se sabe, apesar do nome estar lá, Foucault nunca foi em uma reunião do PCF.


ex-alunos de Althusser, Foucault e Bourdieu.




A relação de Foucault e Althusser é pouco mencionada, e muitos não sabem que existiu. Mas comenta-se que foi graças a Althusser que seu aluno, Foucault, leu Marx e Freud. Assim como Althusser, Foucault era um filósofo prodígio, e na metade de 1950 também se tornaria professor da ENS. Semelhante seu professor, Foucault também sofria com a melancolia e a depressão. No curto período em que lecionou na ENS, alguns professores aconselharam sua internação. Mas Althusser interveio dizendo ela ser desnecessária. Irônia histórica? Um filósofo que acabaria num hospício impediu a internação do filósofo que se tornou o maior historiador da loucura?


Escola Normal Superior de Paris: centro de loucos?



Já que falamos da loucura, vamos falar de outro personagem. Ainda na década de 1950, após Althusser iniciá-lo em Freud, Foucault começou a ver as palestras de uma figura ainda não tão famosa: Jacques Lacan! Nessa época Lacan começava a causar polêmica na França. O país tinha uma sociedade psicanalítica até que bem organizada, mas dizem que pela sua psicanálise heterodoxa, e pelo seu extenso ego, Lacan queria ter a sua própria legião de seguidores.


Jacques Lacan, o bruxo



Além das brigas internas dentro da psicanálise, outra coisa incomodava o ego de Lacan. A PSICOLOGIA. Esta se firmava na França na virada de 1950/1960. Lacan não queria ensinar psicólogos. Ele via a psicologia como uma mera aplicação técnica com objetivos médicos, longe do rigor e complexidade da teoria psicanalítica. Isso levou a uma aliança inusitada entre Lacan e Althusser.

Ambos já se conheciam de vista desde os anos 50. Porém no início 1960 eles descobrem que podem ajudar um ao outro. Althusser queria fortificar a teoria marxista misturando outras teorias, incluindo a psicanálise. Lacan, não estava nem ai para o que Althusser pensava. Mas Althusser tinha muitos alunos fiéis na ENS. Esse era o alvo de Lacan. Para ele, alunos de filosofia eram melhor para a psicanálise do que uma bando de “técnicos” em psicologia!

Essa aliança gerou frutos bons e ruins. De 1960 em diante Lacan seria um psicanalista cada vez mais famoso, tendo vários seguidores na França e no mundo. Jornalistas viriam do exterior para entrevistá-lo, além de sentar no divã só para entender a magia desse estranho feiticeiro. Porém, ele nunca terá uma vaga no seu divã para Althusser, por mais que a melancolia do comunista só piorasse.

Terry Eagleton, o maior fofoqueiro do marxismo, diz que Althusser foi o maior fracasso de Lacan. Não só como paciente, mas em termos teóricos. Isso tem um motivo. O ápice das teorias de Lacan foi a trindade IMAGINÁRIO, SIMBÓLICO, REAL. Não me peça para explicar isso, porque é um inferno. Mas resumindo de uma maneira MUITO GROSSEIRA, o REAL quase não existe, quase tudo é IMAGINÁRIO, e o real é uma espécie de TRAUMA que sempre volta pra te atormentar, e o simbólico faz a ponte entre os dois (acho que é isso).

Então, depois de ler muito sobre inconsciente (Freud) e ideologia (Marx), mais ou menos em 1970 Althusseer vai afirmar que Ideologia e Imaginário são praticamente iguais. Pior, ele vai romper com alguns dogmas marxistas e inventar os Aparelhos ideológico de Estado (doravante AIE). Os AIE seriam as instituições que ajudam o Estado a manter o modo de produção. A pira de Althusser era que a ideologia é uma coisa tão inconsciente, que é praticamente impossível você se tocar que está submetido a ela. Isso incluía a idéia de que a dominação ideológica fosse, antes de tudo, psicológica. E que o Estado só mantém essa dominação por causa de instituições como a igreja, a imprensa e a família.




Alguns dizem que esse upgrade de Marx feito por Althusser foi fundamental para as teorias de seus ex-alunos, Foucualt e Bourdieu, sobre o poder. Tipo aquela idéia do Foucault de que o poder é uma parada que atravessa toda a sociedade, como no Vigiar e Punir. Ou o poder simbólico do Bourdieu, que como ele mesmo diz, é um poder de fazer crer, fazer acreditar!

Essa pira toda de Althusser vai ficar conhecida como o marxismo estruturalista, fruto da fusão do marxismo com o estruturalismo francês. Muitos comunistas vão dizer que Althusser era apenas um teórico, que não estava nem aí para a práxis! Sua alegação de que é impossível fugir da estrutura ideológica vai irritar principalmente o inglês Edward Thompson, que estava preocupado em afirmar a autonomia da classe trabalhadora. Ele ficou tão puto com o excesso de teoria de Althusser que publicou o livro aí em baixo:




Como boa parte do estruturalismo, Lacan e Althusser perderam força a partir de 1980. O primeiro morre inesperadamente, e o segundo, estrangula a mulher e passa o resto da vida num hospício. Arrisco a dizer que o maior fruto dessa aliança promíscua foi um personagem pouco lembrado fora da Psicanálise: Jacques Alain Miller!




Parido na década de 1940, Miller foi um dos alunos de Althusser na virada de 1950/1960, além de militante do PCF. Assim como muitos dos discípulos de Althusser, ele se fascinou por Lacan. Dizem que ao conhecer o jovem Miller, Lacan declarou para Althusser, “nada mau aquele seu garoto”. Miller não só trocou Althusser por Lacan, como é possível dizer que virou um dos maiores arautos de Lacan na França.

Chegamos no ponto final dessa viagem toda. Na década de 1980, pouco após a morte de Lacan, um filósofo comunista, advindo do leste europeu, chega a Paris afim de aprender um pouco mais sobre o estruturalismo francês. Esse filósofo torna-se aluno de Miller, e acaba fascinado pela psicanálise. Seu nome é Slavoj Zizek! Provavelmente, ser a ponte entre Lacan e Zizek foi a maior contribuição de Miller.




Terry Eagleton disse uma vez que Lacan seria um tipo de Deus, e que suas teorias só são compreensíveis porque Zizek é uma espécie de representante de Lacan na terra. Os leitores mais antenados desse filósofo dizem que por detrás de suas análises psicanalíticas do cinema hollywoodiano, seu verdadeiro objetivo é desvendar como Hollywood continua a ser o maior aparelho ideológico dos EUA.

Depois dessa história longa, brevemente resumida, o que podemos concluír? Plágio? Intercâmbio de idéias? Influência mútua? Poderíamos usar as idéias de Bourdieu para dizer que toda essa galera passou pelo mesmo ”campo intelectual”! Mas esse conceito já foi tão estuprado, que eu prefiro simplesmente dizer que é Paris, que nunca foi tão pequena...